
Foto: Tima Miroshnichenko — imagem ilustrativa, não retrata o evento noticiado
Reportagem publicada em 7 de agosto de 2026 pela E&E News, do grupo POLITICO, trouxe o relato de três servidores do Departamento do Interior dos Estados Unidos segundo os quais autoridades do órgão destroem rotineiramente documentos oficiais e usam mensagens que se apagam sozinhas no Signal — prática que contraria o Federal Records Act, a lei federal de arquivos. Um ex-funcionário resumiu o clima interno numa frase: eles têm pavor de registros escritos. No mesmo período, o departamento perdeu cerca de 14% da força de trabalho por acordos de desligamento e aposentadorias antecipadas, incluindo o advogado-geral confirmado pelo Senado e o principal responsável pela área de energia.
O que torna o caso relevante para qualquer organização — e não só para quem acompanha política americana — é o mecanismo. Ninguém precisa dar uma ordem para destruir a memória institucional. Basta que registrar passe a ser percebido como risco pessoal. A partir daí, a decisão migra para o canal efêmero, o combinado vira conversa, e a organização perde a capacidade de explicar a si mesma por que fez o que fez. O efeito é silencioso e cumulativo: não some um documento, some a rastreabilidade.
Para quem lidera uma organização, a lição prática é que a política de registro não se sustenta em regra, e sim em clima. Se a única vez que um documento antigo é desenterrado na empresa for para atribuir culpa a alguém, a equipe aprende rápido que escrever é perigoso — e passa a decidir por telefone. O antídoto é usar o registro para o oposto: revisão de incidente sem caça às bruxas, decisão documentada com o contexto e as alternativas descartadas, e a regra explícita de que ninguém é punido por ter registrado, apenas por não ter registrado.
Há ainda o agravante da combinação. Perder 14% do quadro e, ao mesmo tempo, encolher o rastro escrito é somar as duas formas de esquecer: sai quem sabia e não fica escrito o que se sabia. Nesse ponto, reconstruir como as decisões foram tomadas deixa de ser difícil e passa a ser impossível.
“Não é preciso mandar destruir a memória de uma organização. Basta fazer com que registrar pareça perigoso.”
Fontes
- E&E News by POLITICO — “Inside Doug Burgum’s rocky tenure at Interior” — 07/08/2026 — https://www.eenews.net/articles/inside-doug-burgums-rocky-tenure-at-interior/
- Center for Western Priorities — “Burgum directs staff to shred documents, installs Project 2025 author as Interior watchdog” — 10/08/2026 — https://westernpriorities.org/2026/08/burgum-directs-staff-to-shred-documents-installs-project-2025-author-as-interior-watchdog/